A experiência da doença e a Pessoa
A Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares escolheu comemorar o Dia da Saúde Mental, em 10 de Outubro de 2006, editando uma colectânea de testemunhos de pessoas que sofreram crises depressivas e de elevação do humor.
A nosso intenção é dar a saber a experiência de doenças que ainda são insuficientemente reconhecidas, levando a uma desvalorização da pessoa que a sofre. A diversidade das descrições é muito importante, permitindo analisar várias formas de manifestação dos transtornos do humor. O leitor poderá passar a conhecer de modo mais concreto e vivo o que a psiquiatria descreve de modo objectivo e abstracto.
A escolha dos textos tem também uma razão de ser.
Quatro dos testemunhos são de escritores e artistas de grande valor. A narrativa da experiência da doença insere-se na necessidade de partilhar o sofrimento, procurando ajuda no interlocutor amigo e compreensivo. A tentativa de sair do abismo da solidão gerada pela depressão.
Na carta de Antero de Quental a Oliveira Martins transparece o esforço de consciencialização e luta contra a doença, numa fase em que pouco se sabia do seu mal e não havia tratamentos eficazes.
Mário de Sá-Carneiro agradece a Fernando Pessoa a ajuda prestada, ao dar a conhecer a si, “o cliente”, “a engrenagem minuciosa da enfermidade”. Na carta tece considerações sobre o suicídio, que desejaria evitar, mas que o vitimou quatro anos depois.
A descrição de Abel Salazar, médico, investigador e artista, abre com uma nota desesperada: “Há perto de sete meses que não posso fazer nada, absolutamente nada, nem no labo-ratório nem no atelier. Uma doença maldita e horrível (…). “Passar de uma actividade frenética à absoluta inactividade, a um boneco é o cúmulo do horror”.
O escritor contemporâneo Pedro Paixão narra o pólo depressivo da sua doença de modo existencial e quase clínico: “ O tempo aparece como uma massa informe, pegajosa, impene-trável, porque o sentido que podia ordenar se ausentou, fez greve, sumiu. Ora, não havendo futuro, não há passado nem presente, não há nada. As sinapses dos meus neurónios mandaram-me passear” (...). Na “Invisível escuridão” há uma consciencialização com base científica, tanto na descrição como na terapêutica.
Não têm menos valor os testemunhos de cidadãos comuns, a maioria ligados directamente à ADEB. Seria errado tentar combater o estigma da Depressão e da Doença Bipolar, dando destaque exclusivo às pessoas de grande valor criativo. Os testemunhos de António Pereira, Cristina Dinis, Lucília Lourenço e Luís Manuel são excelentes narrativas na primeira pessoa, genuínas, elaboradas com o coração e a razão. E nestes textos está claramente presente uma clara consciência da doença e da sua superação, informada pela ciência médica, fruto de uma partilha de informação para a qual a ADEB contribuiu de forma determinante.
A pessoa que sofre da doença deve ser activa no seu tratamento, criando hábitos saudáveis e estilos de vida adequados, e colaborando com o médico psiquiatra e outros técnicos de saúde mental, de modo a tornar proveitosos os grandes avanços da ciência médica para a cura destas doenças.
14 de Setembro de 2006
José Manuel Jara
Presidente do Conselho Científico e Pedagógico da ADEB
|