"Ela faz a diferença ao contar a sua história, em vez de escondê-la, porque sabe que isso irá ajudar muitas pessoas."
A música ajudou Lovato a ultrapassar, aos poucos, os períodos menos bons pelos quais passou. Na música "Warrior" canta, por exemplo, "E agora eu sou uma guerreira, sou mais forte do que já fui... sou sobrevivente de todas as maneiras que possas imaginar”.
Os seus fãs dedicados, conhecidos como Lovatics, congratulam-na e transmitem-lhe força e apoio.
"Os meus fãs são incríveis, muitos deles também já passaram por dificuldades na vida e é por isso que eu acho que eles se identificam com a maneira com que falo sobre o meu problema", disse Lovato à revista BP.
Alysa Bainbridge viajou de Leesport, na Pennsylvania, para ouvir a exposição de Lovato acerca da sua doença bipolar, numa palestra em New Jersey. A doença de Bainbridge é estigmatizada pela sua família, daí que ela admire a coragem de Lovato em falar da sua doença, apesar do estigma que existe.
"Isso é o que eu mais gosto nela. Ela não tem medo", disse Bainbridge. "Ela faz a diferença ao contar a sua história, em vez de escondê-la, porque sabe que isso irá ajudar muitas pessoas."
Nessa sala de conferência da Universidade Kean, Lovato partilhou a sua história, de uma forma equilibrada, terra-a-terra e com humor. Ela subiu ao palco com um top de renda preto e uma saia, com o cabelo escuro (o ano passado tinha cortado o cabelo e pintado de louro e azul).
O seu testemunho fazia parte da conferência anual de New Jersey sobre a Depressão e Doença Bipolar. Ela conversou no palco com Allen Doederlein, Presidente Nacional do DBSA, durante quase uma hora:
Q: O que a fez perceber que precisava de ajuda?
R: Foi preciso entrar em colapso mental para perceber que precisava de tratamento. Eu já tinha tentado uma série de vezes obter ajuda, mas só comigo e para mim, não através de medicação, não fiz qualquer outra coisa para mudar o meu comportamento. Essas tentativas nunca funcionaram porque eu nunca consegui conciliar as coisas que precisava de fazer para viver uma vida feliz e saudável.
O fundo do poço parece diferente para todos. Não significa necessariamente ter que chegar a uma ala psiquiátrica ou acabar internada, para encontrarmos a ajuda de que precisamos.
Para mim o fundo do poço foram várias coisas juntas - numa intervenção na presença dos meus amigos e familiares, a minha gestora e os meus advogados, dizerem “se não ficares orientada, deixamos de te apoiar", os meus pais estavam lá e disseram “se não ficares orientada, não podemos permitir que estejas próxima da tua irmã mais nova. Nós vamos voltar para o Texas". Este foi o momento em que eu percebi que afinal isto era sério. E comecei a interiorizar que não fui concebida para ser feliz. E, na verdade, eu pensei que era uma parte da minha "arte" [usando aspas no ar]. Isso é o que me fez ser profunda e artística, assim como Kurt Cobain e outros músicos e artistas com a doença. Eu percebi que a minha doença não me devia impedir de ser feliz. E não me devia definir, nem como sou enquanto pessoa, nem como artista.
Q: Falou sobre a auto mutilação e a auto medicação, sobre o consumo de drogas e álcool, distúrbios alimentares e sobre a doença bipolar. Esses factores fizeram sentir-se mais vulnerável?
R: Absolutamente, em primeiro lugar, eu vejo todas essas questões como mecanismos para enfrentar o meu estado maníaco-depressivo, mas ainda assim, hoje, quando falamos de bipolar, existe um estigma em torno dele que as pessoas não entendem. Por alguma razão, é muito mais fácil para as pessoas falar sobre outro tipo de doença mental ou problemas de dependência. É mais fácil para as pessoas assumirem, “eu sou alcoólico; mesmo que isso seja difícil...para mim falar sobre a doença bipolar é, mesmo agora, um pouco desconfortável porque me faz vulnerável, estar aqui sentada e explicar que há algo de errado nos elementos químicos do meu cérebro, e que isso não quer dizer que eu seja louca”.
Eu sou um ser humano normal, com problemas como todos os outros, a minha "diabetes" (doença crónica) é a doença mental, quando eu faço terapia, quando eu tomo os meus medicamentos, para mim, esse é o meu plano de tratamento, que é a minha “insulina”.
Desde que recebo ajuda, tenho sido capaz de me realizar tanto pessoalmente como profissionalmente.
Q: Depois de sair do tratamento, como é que mantém o seu ritmo?
R: A maneira que encontrei para manter o meu ritmo foi, sempre com a noção de que poderia perder a relação com a minha família a qualquer momento. Também estava a perder a capacidade de ser capaz de estar em palco, porque eu sabia que não podia manchar a minha imagem, a minha carreira e a minha reputação. Criei um hábito que era o de ter relacionamentos com aqueles que me ajudam a progredir, ter uma equipa honesta comigo, que me dizem o que eu preciso ouvir, mesmo quando eu não quero ouvir. Em noites de espectáculo, para lhes mostrar que estou a superar e a envolver-me totalmente, entrego o meu telemóvel, os meus cartões de crédito e as chaves do carro. Eu tinha um companheiro sóbrio – isto é, alguém que está comigo 24/7 – durante um ano. Estas foram as medidas que eu precisei de adoptar para me manter viva. E não estamos a falar de sobrevivência, estamos a falar de ir rejuvenescendo.
Aquilo que as pessoas vêem, do lado de fora, era uma jovem estrela pop de Hollywood ou da Disney. E eu era realmente muito boa a fingir. Na nossa sociedade se se deixar transparecer qualquer tipo de emoção somos considerados fracos. No entanto, eu acho que podemos mostrar, de verdade, a nossa força quando pedimos ajuda. Isto demonstra que temos confiança em nós e que dizemos “Está tudo bem, eu sei que preciso de ajuda. Qualquer um pode ser realmente bom em fingir a sua dor, mas isto deve ser algo que deve ser contrariado”.
Q: O que quer dizer com isso?
R: Contrariar isto é fazer coisas por nós mesmos, mesmo quando não queremos fazê-las - ter de ir trabalhar quando preferia ficar a ver programas na televisão, ou ter de ir a um encontro dos Alcoólicos Anónimos mesmo quando eu não quero, porque estou cansada ou é o meu dia de folga. Quando eu não adopto medidas que contrariem essa inércia, no dia seguinte ou ao final desse mesmo dia, sinto que isso se reflecte até na minha medicação. Tenho que perceber que todas as pequenas coisas na minha vida têm que se conjugar formando o plano de tratamento mais adequado para mim.
Q: O plano de tratamento adequado pode ser duramente conquistado. Como é que encarou o plano de tratamento?
R: Eu acho que encontrar o plano de tratamento adequado é uma viagem difícil e uma montanha russa carregada de emoções. Em média demora cerca de 10 anos para alguém com doença bipolar ser diagnosticada com precisão. Consigo determinar isto porque durante anos, eu sabia que alguma coisa em mim estava errada, e nunca me foi dito o que era, até o dia em que eu aderi a um plano terapêutico.
Mas o plano de tratamento adequado é uma combinação de coisas. É ver o que funciona e isso leva o seu tempo, mas não se pode desistir. No meu caso, o meu corpo teve de se adaptar a certos medicamentos e eu não sabia se eles iriam, de facto, resultar. Era uma questão de ir tentando e de não desistir imediatamente, para deixar o meu corpo se ajustar. Aceitação e consistência é a minha recuperação.
Q: É tão simples, mas é também tão complicado.
R: É complicado tornar as coisas simples e simples é fazer as coisas complicadas.
Q: A ideia de se viver tudo isso quando se tem 21 anos, é a ideia de saber o que será quando tiver 40, 50 ou 70 anos - é impressionante.
R: Independentemente de se ter 21 ou 65 ou 18 anos é uma bênção saber que posso pedir ajuda e que há esperança no tratamento. Às vezes isto leva a que pessoas de 50 ou 60 anos tenham um rasgo de consciência e de capacidade de mudança – para ter a experiência espiritual e a capacidade de sair do fundo do poço. Eu vivi muita coisa demasiado cedo e de forma muito repentina, uma vez que estava já em tratamento aos 18 anos em vez de ser aos 45. A doença mental não escolhe as pessoas com base na idade, no sexo, na raça, na naturalidade ou na etnia.
Q: Estou impressionado com o quão diferente, neste momento, é o público que participa nas conversas em torno da saúde mental. Impressiona-me a idade das duas primeiras filas [aplaudindo os fãs jovens], a exuberância e o ânimo. Isso é o que você, Demi, está a trazer para a comunidade de saúde mental. Porque nós não estamos apenas a falar de sobrevivência.
R: Nós não estamos a falar de sobrevivência. Estamos a falar de ir rejuvenescendo.
Q: Estou a sentir-me muito entusiasmado pela forma como está a deitar tudo cá pra fora…
R: Eu estou entusiasmada por todos os que aqui estão hoje. Porque realmente acredito que a nossa futura geração vai ser constituída por pessoas que não têm esse estigma negativo associado à doença mental. Há um tempo atrás, as pessoas que foram vítimas de bullying escondiam-se, mas depois de se começar a exteriorizar o problema este veio dar asas a diversas conversas. As pessoas começaram, de facto, a ouvir e falar sobre o bullying e eu acho que foi muito porque a nossa geração tem alguma influência sobre os outros.
Outra razão pela qual eu sou capaz de estar hoje aqui sentada, a falar sobre saúde mental, é porque eu não me levo muito a sério. Eu percebo que quando eu falo sobre a doença não a levo tão a sério, tal como ela é. É uma doença muito grave. E mortal. Mas eu sinto que sou capaz de ser autêntica, honesta, e até brincar um pouco, colocando o estigma à distância.
Q: E o que nós estamos a criar - saúde mental.
R: Toda a gente nesta sala está a ajudar a criar, não importa a idade, quem é, ou de que raça ou espécies é [referindo-se ao cão de terapia na sala]. Não importa o tempo que nós estamos a falar sobre isto. O melhor de tudo isto é que as pessoas estão cada vez mais conscientes de como a saúde mental deve ser levada a sério, mas que também ela é comum, e que ao fim de contas pode ficar tudo bem.
Escrito por: Rachel Rabkin Peachman
Fonte: http://www.bphope.com/demi-lovato-stronger-than-ever
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