Em pouco mais de um ano passara de cidadão vulgar a caso social, sem-abrigo e alcoólico. E como passava a maior parte do tempo na rua e pouco frequentava qualquer tipo de serviços, fossem eles quais fossem, um especialista em sem-abrigo dissera-lhe que era um anoréctico institucional.
Um merdas, era o que ele era. Mais valia matar-se. Depois de muito pensar, escolhera o comboio, era mais de acordo com a sua condição de viajante. Pusera-se a andar pela linha fora e quando viu uma carruagem surgir ao longe tirou o boné e saudou-o com um sorriso.
Acordara do Hospital, todo partido e com um psiquiatra a chamar por ele. O médico vira logo o que é que ele tinha: uma depressão major, falta de sertonina na cabeça. (...)
Agradecera ao psiquiatra a promoção a major, ele que nunca tinha passado de um soldado mediano. (...)
Talvez por ser para a cabeça, a serotonina era cara. Contas feitas, saía muito mais barato beber umas litradas de vinho por dia. Perdido de bêbado, gritara pelas ruas que era major, um deprimido major, que bebia porque lhe faltava a serotonina. Na taberna e em toda a comunidade de rua passara a ser o senhor major a quem a Serotonina pusera os cornos! (...)
Excerto do conto «O sem-amor ou o major sem a serotonina»
de António Bento
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